Revisão do Plano Diretor de Manaus expõe fragilidades no planejamento urbano da capital amazônica

Revisão do Plano Diretor de Manaus expõe fragilidades no planejamento urbano da capital amazônica

Um relatório técnico elaborado pela arquiteta e urbanista Melissa Toledo aponta fragilidades estruturais no Plano Diretor Urbano e Ambiental de Manaus (PDUAM) e acende um alerta sobre o esvaziamento do planejamento urbano na capital amazonense. O documento, apresentado como subsídio ao processo de revisão do Plano Diretor, destaca que, apesar de formalmente alinhado ao Estatuto da Cidade, o plano atual tem baixa capacidade de transformar a realidade urbana de uma metrópole marcada por desigualdades sociais, vulnerabilidade ambiental e forte influência dos rios.

De acordo com a análise, Manaus adota um modelo de planejamento excessivamente normativo e setorial, baseado em instrumentos tradicionais de zoneamento, que pouco dialogam com as dinâmicas reais de ocupação do território. “O Plano Diretor de Manaus é juridicamente robusto, mas territorialmente frágil. Ele normatiza muito, mas induz pouco a transformação concreta da cidade”, avalia Melissa Toledo.

A arquiteta ressalta que a desconexão entre norma e território acaba reforçando a informalidade urbana, a insegurança jurídica e a exclusão socioespacial, sobretudo para as populações de baixa renda. “Quando o plano ignora como a cidade realmente se produz, ele deixa de ser um instrumento de política pública e passa a ser apenas um documento declaratório”, afirma.

Um dos pontos críticos destacados no relatório é o zoneamento urbano, considerado rígido e pouco aderente à ocupação consolidada. Segundo o estudo, a falta de articulação entre uso do solo e infraestrutura contribui para a expansão periférica, inclusive em áreas ambientalmente sensíveis, elevando os custos de urbanização e aprofundando a segregação socioespacial. “Há um discurso de contenção da expansão urbana, mas, na prática, o plano não estabelece limites claros nem induz o adensamento qualificado”, observa Melissa.

Na dimensão ambiental, o Plano Diretor reconhece formalmente áreas de preservação permanente, igarapés e fundos de vale, mas falha ao não apresentar mecanismos integrados de recuperação ambiental e regularização fundiária sustentável. Para a arquiteta, predomina um “ambientalismo abstrato”, que desconsidera a dimensão social da ocupação. “Sem conciliar proteção ambiental e direito à moradia, o poder público acaba produzindo conflitos recorrentes com comunidades vulneráveis, sem soluções estruturais”, destaca.

Outro aspecto considerado secundário no plano atual é a habitação de interesse social. Instrumentos fundamentais do Estatuto da Cidade, como as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), o IPTU progressivo no tempo e o parcelamento ou edificação compulsórios, permanecem subutilizados. “Quando a habitação não estrutura o planejamento, a função social da propriedade fica esvaziada”, pontua Melissa Toledo.

A mobilidade urbana também é alvo de críticas. O relatório aponta que o PDUAM mantém a centralidade do transporte individual motorizado e não integra de forma efetiva o uso do solo ao transporte coletivo. Além disso, ignora o potencial estratégico do transporte hidroviário. “Em uma cidade moldada pelos rios, não incorporar a mobilidade fluvial como eixo estruturante é desperdiçar uma das maiores vantagens territoriais de Manaus”, afirma a arquiteta.

No campo da governança, o documento destaca a fragilidade dos mecanismos de participação social, majoritariamente consultivos e com pouca influência sobre decisões estratégicas. Soma-se a isso a ausência de metas mensuráveis, indicadores de desempenho, cronogramas e vinculação orçamentária, o que compromete o monitoramento e a efetividade do plano ao longo do tempo.

A omissão frente às mudanças climáticas é considerada um dos pontos mais preocupantes. O Plano Diretor não incorpora cenários climáticos nem trata eventos extremos como diretriz estruturante, apesar da alta vulnerabilidade de Manaus a cheias, deslizamentos e ilhas de calor. “Planejar sem considerar a adaptação climática é assumir um risco estratégico para o futuro da cidade”, alerta Melissa.

O patrimônio cultural, especialmente o Centro Histórico de Manaus, também recebe tratamento considerado insuficiente. Embora reconhecido formalmente, o plano carece de diretrizes vinculantes para reabilitação, uso sustentável e integração dessas áreas ao desenvolvimento urbano contemporâneo. “O patrimônio não pode ser tratado apenas como memória simbólica; ele precisa ser um eixo estruturante do planejamento urbano”, defende.

Diante desse cenário, Melissa Toledo afirma que a revisão do Plano Diretor é urgente e deve adotar uma abordagem territorial integrada, sensível às especificidades amazônicas. “Planejar Manaus exige reconhecer conflitos, enfrentar desigualdades e articular políticas públicas de forma vinculante. Sem isso, o Plano Diretor continuará sendo um bom texto no papel, incapaz de transformar a cidade real”, conclui.

big

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *